Hoje o ar pesa.
Não o ar do mundo — o que entra e sai dos pulmões —, mas o ar de dentro de mim.
Sinto-o acumulado entre os ossos, lento, denso, como se cada respiração tivesse de atravessar séculos para chegar aos meus lábios.
Acordei com o corpo cansado antes mesmo de me mover.
Há um instante entre o sono e a consciência em que o corpo esquece que está doente — é o único momento em que me sinto leve. Mas logo lembro, e o peso retorna.
Não é apenas físico. É também um cansaço que não sei nomear, um esgotamento da vontade.
Levantar da cama se tornou um ritual de guerra.
Cada músculo parece exigir justificativas para obedecer.
E eu obedeço a eles, como um rei deposto que tenta governar ruínas.
Caminhar até a janela é uma travessia.
O chão range, o corpo treme, e a cabeça parece mais pesada que o resto do mundo.
Quando enfim chego, olho o mar — essa massa viva e indiferente — e penso:
é assim que a vida me observa agora, imóvel, impassível, esperando o desfecho.
Há algo cruel em continuar existindo num corpo que não quer mais.
Ele insiste em me lembrar de cada falha: o pulmão que se recusa, o estômago que rejeita, as mãos que tremem como se tivessem esquecido o sentido de segurar.
Às vezes, tento rir. Mas o riso sai rouco, fraco, como um suspiro mal ensaiado.
Penso no tempo.
No quanto ele se torna diferente quando o corpo começa a desmoronar.
Os minutos se alongam, os dias se confundem. O relógio deixa de marcar horas e passa a marcar resistências.
Cada segundo é um peso que preciso carregar até o próximo.
Mas há também um outro tipo de peso — o mais cruel: o de saber que, em breve, nada disso importará.
Que o corpo, com toda a sua dor, desaparecerá.
Que este cansaço, esta luta, este medo, acabarão.
E mesmo assim, continuo.
Por instinto, por teimosia, por qualquer coisa que ainda pulsa.
Há um momento, às vezes à noite, em que sinto o corpo inteiro vibrar — como se a morte já estivesse dentro de mim, testando os limites da sua nova morada.
Nessas horas, falo com ela.
Digo: ainda não.
Ela responde com silêncio.
Um silêncio que pesa mais que o próprio corpo.
E quando o peso se torna insuportável, fecho os olhos e imagino o que é leve.
O vento.
O som do mar.
O rosto de quem ainda me visita.
Essas coisas pequenas, frágeis, que por segundos me fazem esquecer que estou morrendo.
Mas o esquecimento também é pesado.
Porque, ao abrir os olhos, tudo retorna: o corpo, a dor, a lembrança de que sigo aqui.
Preso.
Inteiro demais para morrer,
quebrado demais para viver.
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