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Sobreviventes
A noite ainda queimava no coração de Kael.
O fogo que levou os pais jamais se apagaria da sua memória.
Sem casa, sem família, ele e Sarya vagavam pelas ruas da cidade, onde a lei não passava de um sussurro. Ali, quem mandava eram os fortes. E os fortes, quase sempre, eram os que nasceram com dons sobrenaturais: homens que cuspiam fogo, mulheres que moldavam sombras, assassinos que liam mentes como livros abertos.
Para duas crianças negras sem nada, sobreviver era um milagre.
Mas Kael tinha algo que nenhum dom podia oferecer: frieza e inteligência além da idade.
Ele observava.
Aprendia.
Decorava os gestos dos vendedores, os hábitos dos guardas, o horário em que os mercadores mais ricos passavam pelas ruelas. Não roubava por prazer, mas por necessidade.
— “Sarya, espera aqui.” — dizia, deixando a irmã escondida em becos, enquanto ele se esgueirava como um fantasma.
Com o tempo, Kael aprendeu a transformar até o lixo em arma. Um caco de vidro, uma pedra solta, uma garrafa quebrada — tudo era recurso para sobreviver.
A rua cheirava a fumaça e podridão.
Sarya agarrava o braço de Kael, os olhos grandes brilhando de medo. Do outro lado do beco, três marginais avançavam, exibindo suas habilidades como feras acuando presas.
— “Olha só, o moleque acha que pode brincar de herói sem ter dom nenhum…” — zombou o primeiro, o de braços endurecidos como pedra. Quando socou a parede ao lado, tijolos voaram em estilhaços.
O segundo abriu a boca e uma chama escapou da garganta, iluminando a viela com tons laranja.
O terceiro girava uma corrente de ferro, a ponta flamejante cortando o ar com um assobio mortal.
Sarya deu um passo para trás.
Kael não.
Ele estava imóvel, os olhos fixos nos inimigos. Respirava fundo.
E então, algo diferente brilhou dentro dele.
Não era poder sobrenatural.
Era leitura.
Era instinto.
Era como se pudesse enxergar um segundo à frente.
O brutamonte de pedra avançou primeiro, o punho descendo como um martelo.
Kael se moveu antes que o golpe viesse — deslizou para o lado, o ar explodindo contra sua pele quando o punho esmagou o chão, rachando a calçada.
Crack!
O de chamas cuspiu fogo, e Kael, rápido, empurrou a própria irmã contra a parede, fora do alcance. O fogo passou rente, queimando a manga do seu casaco preto.
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Sobreviventes
A noite ainda queimava no coração de Kael.
O fogo que levou os pais jamais se apagaria da sua memória.
Sem casa, sem família, ele e Sarya vagavam pelas ruas da cidade, onde a lei não passava de um sussurro. Ali, quem mandava eram os fortes. E os fortes, quase sempre, eram os que nasceram com dons sobrenaturais: homens que cuspiam fogo, mulheres que moldavam sombras, assassinos que liam mentes como livros abertos.
Para duas crianças negras sem nada, sobreviver era um milagre.
Mas Kael tinha algo que nenhum dom podia oferecer: frieza e inteligência além da idade.
Ele observava.
Aprendia.
Decorava os gestos dos vendedores, os hábitos dos guardas, o horário em que os mercadores mais ricos passavam pelas ruelas. Não roubava por prazer, mas por necessidade.
— “Sarya, espera aqui.” — dizia, deixando a irmã escondida em becos, enquanto ele se esgueirava como um fantasma.
Com o tempo, Kael aprendeu a transformar até o lixo em arma. Um caco de vidro, uma pedra solta, uma garrafa quebrada — tudo era recurso para sobreviver.
A rua cheirava a fumaça e podridão.
Sarya agarrava o braço de Kael, os olhos grandes brilhando de medo. Do outro lado do beco, três marginais avançavam, exibindo suas habilidades como feras acuando presas.
— “Olha só, o moleque acha que pode brincar de herói sem ter dom nenhum…” — zombou o primeiro, o de braços endurecidos como pedra. Quando socou a parede ao lado, tijolos voaram em estilhaços.
O segundo abriu a boca e uma chama escapou da garganta, iluminando a viela com tons laranja.
O terceiro girava uma corrente de ferro, a ponta flamejante cortando o ar com um assobio mortal.
Sarya deu um passo para trás.
Kael não.
Ele estava imóvel, os olhos fixos nos inimigos. Respirava fundo.
E então, algo diferente brilhou dentro dele.
Não era poder sobrenatural.
Era leitura.
Era instinto.
Era como se pudesse enxergar um segundo à frente.
O brutamonte de pedra avançou primeiro, o punho descendo como um martelo.
Kael se moveu antes que o golpe viesse — deslizou para o lado, o ar explodindo contra sua pele quando o punho esmagou o chão, rachando a calçada.
Crack!
O de chamas cuspiu fogo, e Kael, rápido, empurrou a própria irmã contra a parede, fora do alcance. O fogo passou rente, queimando a manga do seu casaco preto.
Work type Literary: Other
Tags filosófico, esperança, cultural, drama, africano, família…, poético
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Registry info in Safe Creative
Identifier 2509073009661
Entry date Sep 7, 2025, 7:52 PM UTC
License Creative Commons Attribution 4.0
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Copyright registered declarations
Author. Holder Meireles Nsangui. Date Sep 7, 2025.
Information available at https://www.safecreative.org/work/2509073009661-infinito