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A Caçada
05/12/2026
Denis Peres
A Caçada
Denis Peres – Maio 26
Prefácio:
Em São Miguel, a verdade nunca chega inteira. Ela sempre é vista em pedaços, atravessada por interesses, versões, silêncios e conveniências. Cada pessoa segura um fragmento, acrescenta alguma coisa, esconde outra, e por fim, ninguém sabe exatamente onde termina o fato e começa a narrativa.
Talvez porque, a verdade nunca pertença a quem viveu realmente a história, mas sim a quem consegue contá-la da forma que mais empolga seu interlocutor. Ninguém espera por provas, espera apenas confirmação.
Normalmente as pessoas só precisam de uma versão que organize o medo, o luto, a raiva ou a culpa, e quando essa versão finalmente nasce, passa a circular pelas ruas, bares, varandas e pelas mesas de jantar com uma força impossível de controlar.
E cresce! Ganha detalhes de testemunhas fabricadas, que nunca estiveram presentes verdadeiramente ao fato, mas que o reportam como ninguém.
Depois de um tempo, já não importa mais se aconteceu exatamente daquela maneira. O que fica é o que todos passaram a acreditar.
Foi assim em São Miguel. Uma cidade quente, cercada de mar, de silêncio e de histórias mal terminadas. Um lugar onde seus habitantes aprenderam que sobreviver também significa saber, quando falar e quando calar.
Lúcio nunca soube jogar esse jogo. Queria uma vida simples, pacata, com as aventuras no mar, ao sabor do vento, à tranquilidade aparente da mata, aquela liberdade bruta de quem só quer viver mais próximo da natureza do que dos homens.
Mas acabou se tornando no homem que expôs toda essa contradição.
Ou talvez porque algumas pessoas simplesmente carreguem consigo uma espécie de inadequação silenciosa, uma incapacidade natural de se encaixar na versão que os outros esperam delas.
Alguns o viam como um homem livre, outros, como perigo. Toda história precisa de um culpado, e mais cedo ou mais tarde, a cidade escolhe o seu.
O problema começa quando a verdade insiste em sobreviver por baixo das versões criadas para enterrá-la, porque pode até ser abafada, manipulada, distorcida ou empurrada para longe durante algum tempo, mas tem uma característica perigosa: continua existindo mesmo quando ninguém mais quer olhar para ela.
E é justamente aí que tudo se complica. Pode ser que a mentira só sobreviva porque a verdade chega tarde demais.
E quem foi que disse que um raio não cai no mesmo lugar por duas vezes?
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