O dia amanheceu sem luz. O céu não estava nublado — estava apagado. Um cinza grosso, sufocante, como se o sol tivesse desistido da Arimba. O pai de Brando enfiava os poucos pertences dentro de um saco de milho. Não falava com ninguém. Apenas rangia os dentes. — Vamos antes que o dia vire noite — murmurou. A mãe fez sinal de silêncio. — Tu ouviste? — sussurrou, tremendo. Brando e a irmãzinha pararam. Sim. Um som… ou a ausência dele. O bairro estava mudo. Sem gritos, sem passos, sem rádios de manhã. Nem galinha. Nem vento. Só… um som baixo, que mais parecia o ronco de alguém muito alto e muito perto. — Ele não foi embora — disse Brando. — Ele está aqui. A irmã mais nova, sentada num canto da casa, desenhava no chão de terra com um pedaço de carvão. Quando a mãe se aproximou, gelou. — Que estás a fazer, filha? — A desenhar o senhor da noite. No chão, um desenho: uma figura gigante, sem rosto, segurando o que parecia ser uma criança pelos pés. O pai arrancou o carvão da mão da filha. — Que raio é isso? Quem te ensinou? — Ele. Ele me mostrou como ele é… ontem.
A mãe caiu sentada, com os olhos cheios. Brando segurou a irmã pelos ombros. — Não olha pra ele. Nunca mais. Nem nos sonhos. A menina chorou baixinho. E o som… voltou. Tap… tap… tap… Como passos muito pesados… Sobre o telhado. O pai pegou o facão. — Vamos sair agora. Correndo. Não importa pra onde. Mas quando abriram a porta… a rua estava errada. A casa sempre dera para a viela do lado da padaria. Mas agora… Não havia padaria. Havia apenas um campo de terra vermelha, e no meio dele, a mesma casa onde estavam, mas sem janelas. — Que raio é isto? — gritou o pai. — É ele. Ele está brincando com a gente — disse Brando. A mãe desabou de joelhos: — Estamos presos. Do outro lado da rua sem saída, uma mulher correu, gritando o nome do filho: — Mayombo! Mayombo! Mas a rua se repetia infinitamente. E atrás dela… vinha algo alto. O Homem Sem Rosto. Andava como se o chão se dobrasse sob seus pés. E com ele… vinha o silêncio.
Brando puxou a irmã e correu pra dentro. O pai hesitou. Olhou o céu. E viu algo impossível: o sol estava virado de costas. Naquela noite, não houve jantar. Só uma fogueira feita de desespero e orações abafadas. Brando segurou a irmã. — Se ele me levar, não deixa ele levar você, tá? A menina respondeu com uma pergunta: — E se ele não quiser mais ninguém… só tu? Brando não respondeu. Porque a resposta… ele já sabia. O Homem Sem Rosto estava obcecado por ele.
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